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27
jul

Urbanismo apaixonado

A paixão de Luiz Paulo Conde pelo Rio de Janeiro não lhe permitia saber de ações que considerava prejudiciais à cidade sem que buscasse intervir para melhorar

Em artigo recente, Ruy Castro chama a atenção para as múltiplas faces da vida urbana que se superpõem no mesmo território e ao mesmo tempo. O título, “Cidade dentro da outra”, é boa imagem para ilustrar que a cidade contemporânea resiste à hegemonia da cidade funcional, onde cada coisa teria o seu próprio lugar: trabalhar, circular, morar, divertir.

Nossas cidades foram subjugadas ao funcionalismo do modo mais bruto: implantaram-se viadutos e elevados; deu-se autonomia ao edifício-espigão, isolaram-se as pessoas; desconsiderou-se o espaço público, que se tornou inseguro, feio e desconfortável. O Rio, a mais bem estruturada das cidades brasileiras da primeira metade do século XX, foi a que mais sofreu.

É nesse contexto que gerações de arquitetos foram formadas. Entre elas, a de Luiz Paulo Conde.

Quase todas as acepções do Dicionário Aurélio para o termo “paixão” continham-se na personalidade rica e complexa de Conde, arquiteto do Rio, professor, prefeito da cidade, que nos deixou esta semana, aos 80 anos. Passional desde estudante, atrasou um ano acadêmico para acompanhar sua amada Rizza, companheira de vida.

A costurar o tempo, a paixão pela arquitetura. Conde foi sempre arquiteto. Atento ao mundo, inquieto, pesquisador de técnicas, de materiais e de conceitos, cujas descobertas fazia questão de compartilhar. A qualidade de suas obras era exaustivamente buscada por projetos completos, bem detalhados — após o que os defendia apaixonadamente contra as investidas descaracterizadoras, que sempre as há. Mas não era prima donna no projetar: conversava, acolhia contribuições, era arquiteto de equipe. Foi assim que sua obra arquitetônica alcançou o mais amplo reconhecimento.

Conde tinha lugar destacado na cultura brasileira, tinha feito sua alforria intelectual dos dogmas modernistas, estava maduro nos conceitos e na crítica, quando passou a cuidar de outra paixão, o Rio.

“Urbanismo de volta às ruas”, livro sobre o projeto Rio-Cidade, é bem uma ilustração da ideia de recuperar o espaço público para as pessoas. Tratar a ambiência urbana foi a matriz para valorizar as centralidades de dezenas de bairros e recuperar a autoestima carioca. Não se pense que implantar esse conceito, transformá-lo em obras, é ou foi coisa simples: toda uma inércia cultural se antepunha, um sentimento de não prioridade, urdido em décadas de abandono, se colocava politicamente. Foi a liderança de Conde e o apoio que teve do prefeito Cesar Maia que deram as condições para o êxito, alcançado com dezenas de equipes de arquitetos contratados por concurso público de projetos.

A mesma matriz organizou o programa Favela-Bairro, que tive o privilégio de coordenar em mais de 150 favelas. Levar a cidade à favela, urbanizá-la com dignidade projetual e política — sem clientelismo ou populismo — é (o Rio pode dizer sem modéstia) uma das mais importantes experiências sociais e do urbanismo contemporâneo, colocada à vanguarda da doutrina, cujos frutos se observam em cidades brasileiras e em diversos países.

Entre esses maiores programas, o Rio promoveu amplo processo de discussão da cidade e a elaboração do primeiro Plano Estratégico, onde se buscou a cidade integrada e se plantou a semente dos Jogos Olímpicos.

A paixão de Conde pelo Rio não lhe permitia saber de ações que considerava prejudiciais à cidade sem que buscasse intervir para melhorar. Assim salvou a Praça Sibelius, no Leblon, de viaduto entre a PUC e o Miguel Couto. Deu civilidade à Avenida das Américas, com sinais de trânsito, como é de urbanidade, em vez de viadutos, como é do rodoviarismo. Deu força à ideia do arquiteto Flávio Marinho Rêgo, que concebeu o mergulhão, e à equipe de Urbanismo do Instituto Pereira Passos, para reurbanização da Praça XV e retirada do terminal de ônibus que inviabilizava aquele espaço simbólico. Não conseguiu tirar o Elevado — mas esteve perto.

É urbanismo do século XXI. Não é o urbanismo de papel, que busca a proposta inacessível; nem o de destruição, que quer a tábula rasa como base. É aquele que se apoia nas preexistências ambientais e culturais para construir o futuro no presente.

Apaixonado pela vida, Luiz Paulo Conde tinha a convicção que ser arquiteto e ser político era para fazer um mundo melhor.

Conde, um amigo sempre parcial — nada dele emanava sem paixão.

Sérgio Magalhães é arquiteto, e Presidente Nacional do IAB.

Leia o artigo oficial, publicado no Jornal O Globo: http://oglobo.globo.com/opiniao/urbanismo-apaixonado-16916502#ixzz3h5obE1BJ
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