IAB Campinas

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30
abr

Para olhar, admirar e preservar

Antigos painéis de azulejos ainda são encontrados nas ruas de Campinas

SHEILA VIEIRA
DA AGÊNCIA ANHANGUERA

Basta olhar atentamente nas fachadas de imóveis mais antigos localizados em bairros tradicionais para notar os painéis de azulejos. Estão presentes em alguns comércios, como na fachada do Victor Palace Hotel, na Avenida Andrade Neves, e em residências do Jardim Guanabara e da Avenida Monte Castelo.

Alan Cury, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) Núcleo Regional Campinas, defende a manutenção da originalidade de uma edificação histórica, o que significa que na revitalização de uma fachada, a presença de trincas, lascas e quebras não são argumentos suficientes para a substituição de um elemento histórico.

“Muitas das vezes é possível a remoção e recuperação das peças, para posterior instalação de volta à edificação”, observa.

Porém, o arquiteto alerta para o risco na remoção dos azulejos, que podem quebrar e ficar inutilizados, sendo imprescindível a contratação de especialistas. “A última instância será a substituição dos originais por reproduções. Podem ser feitas com as mesmas técnicas do passado, trabalho oneroso mas com a vantagem de manter a história da peça, ou a alternativa de técnicas modernas com resultado similar mas sem valor histórico. A fachada do tradicional hotel na Avenida Andrade Neves, de frente para o terreno que antes abrigava a Rodoviária de Campinas, mantém um painel horizontal de 30 azulejos retratando uma cena bucólica de uma paisagem rural. O trabalho resiste ao tempo e ainda traz no cantinho direito o nome do ateliê de seu criador.

Outro exemplo de comércio com a área externa enriquecida pela presença de painéis de azulejos é o Salão do Luís, imóvel antigo no número 171 da Avenida General Carneiro, esquina com a Rua Engenheiro Monlevade. Imóvel da família, a casa abriga um painel na área interna e outro no muro do lado de fora. “Os clientes admiram. É uma coisa que não existe mais”, diz o cabeleireiro Luisvaldo Brito de Lima. Desde que montou o comércio no imóvel há nove anos, sempre defendeu a preservação dos painéis, que retratam cenas diferentes, sempre em cenários bucólicos. Lima não soube precisar há quanto tempo os painéis foram instalados na frente do imóvel, entretanto, a presença de cinco dígitos no telefone no canto dos azulejos indica as décadas de 1960 e 1970. “Pra mim os dois panéis são igualmente bonitos. Sou contra a retirada”, diz o cabeleireiro.

De acordo com o presidente do IAB Núcleo Regional Campinas, raramente um painel de azulejos deprecia o valor de um imóvel. Ao contrário, se for um elemento histórico, valoriza muito a construção. Porém, Cury lembra que, como toda obra de arte, o paniel de azulejo também sofre preconceito pelo desconhecimento cultural e histórico, o que infelizmente é uma realidade no Brasil. O arquiteto também aponta a presença de painéis instalados sem critérios artísticos e arquitetônicos, sem valor cultural, que podem ser incompatíveis com a construção. Nesses casos, a desvalorização é momentânea, e facilmente solucionada. Podem ser substituídos por várias opções de acabamentos e revestimentos que cumprem funções semelhantes às dos azulejos. Segundo o arquiteto, materiais nobres — vidro, aço e minérios —cumprem essa missão. Opções menos nobres, mas com ótimo desempenho térmico e visual também são notadas nas fachadas, como os cimentícios e cerâmicos mais espessos.

Como elemento de revestimento, de acordo com Cury, está cada dia mais usual optar por uma pintura diferenciada em determinado trecho do ambiente, como forma de destacar o espaço, promover o inusitado e trazer emoção ao local. “A ligação entre a arte e a arquitetura é sempre muito bem-vinda”, diz.

 

ÍCONE NO CENTRO

Alan Cury no Palácio dos Azulejos: ponto turístico

Ícone de imóveis com azulejos na fachada, o Palácio dos Azulejos, histórica edificação de 1878, localizada no cruzamento das Ruas Ferreira Penteado e Regente Feijó, traz o revestimento de azulejos portugueses no pavimento
superior.

De acordo com Alan Cury, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) Núcleo Regional Campinas, Portugal é reconhecidamente um dos países que mais utilizam esse tipo de revestimento. Influenciaram a arquitetura brasileira desde sua descoberta. Um século após a chegada dos descobridores, os conventos, engenhos, museus e obras de destaque recebiam os adornos portugueses, sempre com manifestações artísticas, mas sobretudo para proteger as alvenarias das intempéries. Fruto de um processo de compactação da matéria, queima e pintura esmaltada, além de sua beleza, os azulejos têm características fundamentais à construção civil, como a impermeabilidade — ou ausência de penetração de líquidos — e qualificação estética, uma opção prática e econômica.

No Brasil, o presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) Núcleo Regional Campinas, lembra que a produção nacional só ganhou destaque por volta de 1900, pelas mãos de famílias tradicionais como Klabin, Matarazzo e Schimidt.

A técnica de produção de azulejos surge do baixo custo de produção, porém com alto valor pictográfico e arquitetônico. Resumidamente, os temas oscilam entre os relatos de episódios históricos, cenas mitológicas,
iconografia religiosa e uma extensa gama de elementos decorativos.