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06
fev

De oito a oitenta, por Sergio Magalhães

Coerente com a ideia de que a sociedade brasileira trata o improviso com muita consideração, nossas ações ora vão em um sentido, ora pegam sentido em contrário, ambos assumidos com igual ênfase e convicção. Costumamos ver as regras se alterarem de oito a oitenta com grande rapidez e leveza.

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De oito a oitenta - por Sergio MagalhãesTalvez esteja nessa nossa característica uma das explicações para o relativo fracasso dos sistemas de planejamento, não apenas os edilícios ou urbanísticos, mas também os econômicos, os políticos e demais. Infelizmente, quase nunca com resultado inócuo.

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Agora, no chamado Museu do Índio, em obra externa ao estádio do Maracanã, houve um vertiginoso percurso da demolição ao tombamento, em dias. Abandonado por décadas, o imóvel foi ocupado por indígenas que passaram a designá-lo Aldeia Maracanã. Quando se soube que seria demolido para dar lugar à área de dispersão do estádio (ou a estacionamento, não ficou claro), uma manifestação política se opôs à demolição, obteve apoio judicial e culminou com a desistência do governo na ação. A seguir, anunciou o governo que proporá o tombamento do edifício.

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Ainda no mesmo âmbito, estão os projetos divulgados para interligar o Maracanã à Quinta da Boa Vista, passando por cima da ferrovia. De um complexo com lojas, milhares de vagas para estacionamento e uma praça na superfície elevada, passou-se, segundo noticiou a coluna de Ancelmo Gois, a uma passarela, bastante singela, com presumíveis 540 metros de comprimento (sim, mais de meio quilômetro), sem lojas e sem nenhuma vaga para estacionar.

Também o caso da Avenida Rio Branco. De mais elegante espaço publico brasileiro, a antiga Avenida Central tornou-se nas últimas décadas um canal de transporte coletivo metropolitano. Em cada abertura de semáforo — talvez um minuto —, passam pela Rio Branco, na esquina com Avenida Almirante Barroso, entre 20 e 30 ônibus, mais os automóveis. Pois dessa exuberância, mediante estudos de remanejamento, a Prefeitura anuncia que transformará esse trecho em exclusivo para pedestres.

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Não são apenas empreendimentos públicos que fazem esse vaivém. Privados também seguem igual doutrina. Sob a chancela de Eike Batista, a Marina da Glória, no Aterro do Flamengo, foi projetada com um centro de convenções-shopping associado. A contestação que recebeu de ambientalistas logo a fez rejeitada publicamente pelo empreendedor. Passados alguns meses, rejeita-se a rejeição e retorna o primeiro modelo, algo reduzido.

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Depois de fatos negativos de grande repercussão, leniências dão lugar a alto rigor, como fazem governos em todo o Brasil, após a tragédia em Santa Maria. É justo, mas também é recorrente. Vai-se de proibido a compulsório sem transição.
Projetos são antevisões. Logo, podem ser modificados; é do processo. Mas percorrer em segundos do oito ao oitenta não parece coisa adequada para prancheta de arquiteto, está mais para Fórmula 1.

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Pois projeto também é ideia — não são plumas ao vento.

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Artigo publicado no jornal O Globo em 02 de fevereiro de 2013

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Presidente do IAB Nacional Sergio MagalhãesSérgio Magalhães

Presidente Nacional do IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil

 

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