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Campinas volta a planejar o transporte sobre trilhos

Publicado 21/01/2016 por Maria Teresa Costa – Jornal Correio Popular

Prefeitura de Campinas começa a trabalhar na formatação de um projeto para dotar a cidade de transporte sobre trilhos. Pode ser VLT, trem urbano, monotrilho ou metrô.

O prefeito Jonas Donizette (PSB) acredita que está na hora do município pensar seriamente em inserir os trilhos na mobilidade urbana porque, segundo ele, somente assim os problemas de transporte que a cidade enfrenta serão resolvidos.

Nesta quarta-feira (20), ele se reuniu com o secretário estadual de Transportes Metropolitanos, Clodoaldo Pelissioni, para convidar o Estado a participar da elaboração do programa. Jonas quer ter um projeto pronto até o fim de 2016, último ano do atual mandato.

Jonas disse que, pelos custos apresentados para os diversos tipos de transporte sob trilhos, o VLT é financeiramente mais viável. O custo do quilômetro de metrô sai por R$ 600 milhões, o do monotrilho R$ 300 milhões e do VLT, R$ 78 milhões.

“Iniciamos a conversa e acho que poderemos contar com o Estado para a elaboração do projeto. O momento econômico não favorece a implantação, mas queremos ter o projeto pronto, com estudos de viabilidade econômica, técnica e ambiental para quando for possível, desencadear a implantação. Sem participação do Estado é impossível bancar o projeto”, afirmou.

Após o Carnaval, haverá encontro das equipes técnicas do Estado e do Município para a sequência das discussões, informou o prefeito. A cidade tem 120 quilômetros de leitos ferroviários dentro do município, com 654 metros quadrados de área útil para oficinas e manobras.

Os leitos conectam o centro aos principais bairros e aos principais municípios da Região Metropolitana de Campinas (RMC). Mas tudo isso é espaço vazio ou invadido. O único trecho ativo é o da Paulista, utilizado atualmente no transporte de cargas. O restante está ocupado, com construções ao redor.

O especialista em mobilidade urbana da organização Cidades Integradas, Jeferson de Oliveira, avalia que, mesmo com o desmonte ocorrido na experiência do VLT, o sistema mostrou ser possível ter soluções mais baratas do que o metrô. “Uma cidade com tantas áreas de leitos ferroviários desativados não pode deixar de utilizá-los”, afirmou.

Para ele, Campinas deve começar a trabalhar em um sistema sobre trilhos e deixar metrô subterrâneo para um futuro mais distante. “A cidade precisa de metrô de superfície, e isso vai exigir não apenas trilhos e veículos, mas também a reorganização das linhas de ônibus para que elas alimentem os trens e assim não repetir os erros do VLT, que não estava integrado ao sistema de ônibus.”

Para o presidente regional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Alan Cury, não se pode imaginar uma cidade do porte de Campinas, com mais de 1 milhão de habitantes, inserida numa região metropolitana com mais de 3 milhões de habitantes, sem que hajam sistemas efetivamente integrados de mobilidade urbana. “Transporte público sobre trilhos demanda muito planejamento e grandes investimentos”, afirmou.

Cury citou o exemplo da Região Metropolitana de Porto, em Portugal, que tem quase 3 milhões de habitantes. “Por lá, há a integração dos Comboios (trens metropolitanos), Metrô do Porto e Bondes (VLTs). Todo este conjunto, um case de sucesso mundial, foi subsidiado pela Comunidade Europeia, e transformou toda aquela região. O Metrô do Porto, cidade com seus 300 mil habitantes, nasceu nos anos 2000 e hoje é completamente funcional e eficiente. Tamanha qualidade fez com que a empresa público-privada, gestora do sistema, passasse a prestar consultorias por todo o mundo, como é o caso do metrô de Dubai, outro case de sucesso mundial”, disse Cury, que integrou, no ano passado, uma comitiva de urbanistas que visitou o Porto e apresentou Campinas e seus números. “A reação dos colegas portugueses foi eufórica. Nossos números, nossa economia, nossas necessidades são certamente compatíveis com os investimentos necessários para que, em médio prazo, possamos contar com esta modalidade tão eficiente de transporte público de massa”, disse.

‘Trauma’ com VLT não pode contaminar debate, diz Jonas

A experiência de Campinas com o veículo leve sobre trilhos (VLT), que circulou entre 1990 e 1995 e foi o maior fracasso na tentativa de dotar a cidade de um sistema sobre trilhos de transportes, não deve contaminar a discussão sobre a necessidade de implantar transportes sobre trilhos, segundo o prefeito Jonas Donizette (PSB).

“Temos que discutir o modelo, mas não há dúvida que a solução para a mobilidade urbana de Campinas tem que incluir os trilhos”, disse. O VLT fracassou porque não foi planejado e integrado a outros modais, o que significou um desperdício de US$ 120 milhões, gastos nos trilhos e nas estações, algumas das quais nunca chegaram a funcionar.

Mais conhecido pela denúncia de irregularidades na contratação da obra (superfaturamento e licitação viciada) que pelos benefícios que trouxe à população, o VLT nasceu da tentativa do ex-governador Orestes Quércia de cooptar o prefeito Jacó Bittar, então recém-saído do PT.

O projeto esbarrou em “dificuldades técnicas” que as seguidas liberações de recursos não conseguiram contornar. Em 1993, quando começou a operar comercialmente, o VLT tinha 11 estações, três das quais (Curtume, Joaquim Vilac e Bonfim) jamais foram abertas.

Para ser lucrativo, precisava transportar 100 mil passageiros por dia, mas não chegou a 5 mil, segundo os cálculos feitos à época pela Fepasa. O sistema tinha uma receita de R$ 60 mil e uma despesa de R$ 760 mil mensais para operar em apenas 7,8 quilômetros.