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17
jul

Caminhar e beber água

Caminhar e beber água
por Roberto Ghione

Determinados padrões de civilidade e de direito cidadão ficam evidentes nas ações mais simples e elementares, especialmente quando se visitam outros contextos. Esta circunstância motiva a reflexão acerca do nível de subdesenvolvimento e dos desafios que têm pela frente muitas cidades brasileiras.

O direito elementar de caminhar pela cidade com segurança e conforto, padrão básico de cidadania e democracia, motiva admiração e assombro na comparação com cidades de outros países, inclusive de PIB inferior ao brasileiro. Quando isso acontece, o sinal de alarme acende a reflexão acerca de hábitos que viram costume e impedem criar consciência do nível de degradação em que se habita em muitas cidades do Brasil. O direito primário de usar o espaço público com dignidade virou uma inaceitável utopia no atual contexto de cidade mercadoria, que favorece obstinadamente os valores de uma burguesia acostumada a se isolar e se movimentar em automóvel, estimulando a segregação e a intolerância, enquanto calçadas e elementos do espaço público viram objetos degradados, destinados aos pobres e, portanto, sem necessidade de maiores cuidados. A privatização do espaço das cidades brasileiras em condomínios fechados, edifícios exclusivos, academias, shoppings, edifícios corporativos, até cemitérios, se complementa com a negligência do poder público em relação à manutenção dos bens de interesse geral. Esta situação perdura no espaço urbano a desigualdade social ancestral que envergonha o país, ao mesmo tempo que estimula a arrogância de uns e a humilhação de outros.

O cuidado com o projeto e manutenção das calçadas, delimitação de meio-fio, arborização, sinalização, acessibilidade, redes e equipamento público determina o nível de desenvolvimento de uma cidade e de civilidade de uma sociedade. O direito básico de todo cidadão de ir e vir em liberdade, com dignidade e segurança, especialmente a pé, virou utopia na realidade de muitas cidades brasileiras. Casos de pessoas que recorrentemente morrem nas calçadas do Recife por choque elétrico de fiação mal projetada ou conservada, assim como o persistente temor à violência urbana, evidenciam uma situação inadmissível no atual estágio da civilização contemporânea. A atual concepção rodoviária das ruas precisa mudar, em carácter de urgência, para o de lugar urbano, pleno de atividades integradoras que só será possível mediante o estímulo dos usos mistos, o melhoramento do transporte público e o combate ao uso exclusivo e excludente e à mobilidade através do automóvel.

Beber água da torneira em casas, espaços públicos, hotéis, restaurantes, etc. é um sinal de civilidade que, assim como as calçadas, causa assombro e espanto na comparação com a realidade brasileira, que perdura em pleno Século XXI situações anacrônicas e longamente superadas em outros contextos. Água potável, que pode ser bebida com segurança de qualquer torneira, é demonstração de compromisso público e social com o ambiente natural, com a conservação dos cursos de água, com o controle da emissão de poluentes e com o saneamento. Manifestação de civilidade que assume, possivelmente, o maior desafio contemporâneo: conciliar o desenvolvimento urbano com superpopulação e preservação dos recursos naturais.

Na contramão do desenvolvimento, moradores de cidades como Recife se vem forçados a perfurar poços artesianos para abastecimento de água, que colocam em risco de contaminação ou de exaustão os aquíferos e comprometem a saúde das pessoas, a preservação dos recursos naturais e a qualidade do ambiente. Perfuração de poços artesianos evidencia ausência de planejamento e de compromisso com o bem estar das pessoas, prática que de tanto ser realizada virou costume (sob a ignorância ou a vista grossa de governantes e gestores), com a total perda de consciência dos riscos sociais e de saúde assumidos.

Caminhar e beber água refletem a valorização da liberdade, da democracia e da integração de esforços públicos e privados em favor da convivência e do respeito pelos valores naturais. Expressão de desenvolvimento e de um estado de civilidade do qual a realidade brasileira se encontra longe, sucateada por ações que perduram privilégios de poucos em detrimento do interesse geral. Adoecer por beber água ou morrer ao intentar caminhar pela cidade são os extremos de incivilidade provocados pela improvisação e irresponsabilidade que refletem a total falta de planejamento e de compromisso da gestão pública com o bem-estar das pessoas.